Walt Whitman versus Emily Dickinson

Publico aqui um outro trecho traduzido para o português de minha tese de doutorado sobre Whitman e Folhas de Relva, em que aparece uma comparação do bardo norte-americano com a maior poetisa daquele país, da seção 2.4 Leaves of Grass: secondary sources.

Diz essa passagem, em que trago a crítica de Harold Bloom sobre o poeta:

Sua importância (de Bloom) consiste em revelar o hermetismo de Whitman para nós (leitores). Na introdução ao volume de Modern Critical Views (1985), sobre Whitman, ele explica-nos porque não é fácil nem simples entender o poeta e suas obras, especialmente para um tradutor que precisa ou tem que trabalhá-las, embora este problema possa afetar qualquer pessoa que o faça:

[...] Nenhum outro poeta insiste tão veementemente e tão continuamente que vai dizer-nos tudo, e nos dizer tudo sem artifícios, e no entanto nos diz tão pouco, e tão astuciosamente. Exceto por [Emily] Dickinson (a única poeta americana comparável a ele em magnitude), não há outro poeta do século XIX tão difícil e hermético quanto
Whitman; nem Blake, nem Browning, nem Mallarmé. Apenas uma elite pode ler Whitman, apesar da insistência do poeta de que ele escreveu para o povo [...] (BLOOM, 1985, p.3)

O problema (e solução) aqui repousam no que está no núcleo da personalidade e na obra de Whitman: a sua contradição. Está escrito na primeira página de Folhas de Relva, no primeiro poema de “Inscrições”, que o poeta canta “uma pessoa simples separada, / No entanto, emite a palavra Democrático, a palavra En-Masse “.

O propósito do poeta é estabelecido desde o início e todo leitor de Whitman sabe que ele prefere passar seu tempo entre os  iletrados do que entre pessoas da classe alta, e que as pessoas mais importantes para ele são as pessoas comuns, médias, que são a força que constrói a nação e seu futuro, e de quem a democracia brota.

Como poderia, então, que os escritos de “um cara grosso” só podem ser compreendidos por “uma elite”? Parece-nos que somente a contradição pode explicar como um poeta que supostamente pertencia às massas tornou-se o “centro do cânone americano” em
literatura.

E mais ainda: um poeta que foi desprezado pela própria Emily Dickinson, de quem incluí a opinião sobre Whitman em outro artigo, em que ela diz que não o leu, mas ouviu dizer que era “infame”.

E essa opinião sobre Whitman certamente foi baseada na propalada crueza de muitos trechos de Folhas de Relva, que de tão detalhados, pareciam que fediam, como foi comentado por críticos e poetas.

E assim, ao mesmo tempo que Whitman foi rechaçado pela intelectualidade de sua época, ironicamente ele acabou sendo incompreendido pelas massas (no dizer de Bloom).

Mas como dizia o poeta: ele é vasto, ele contém multitudes, e isso inclui ser grosso e ser fino, ser amado e odiado, venerado e detestado, compreendido e expurgado. Como poderia ser diferente, se ele não se esquivou em cantar a maldade, da mesma forma que cantou a bondade?

Ele se achou semelhante ao Cristo, observando sua própria crucificação, mas ele também admitiu ser o maior traidor, consciente de suas fraquezas mundanas, ao passo que não perdia de vista sua divindade.

Neste ponto, concordo de novo com o Bloom: é preciso gastar muito fosfato para entender o poeta, em todas as suas sutilezas, pois quando ele mais se mostra, mais ele se esconde, e vice-versa.

Quem quiser entendê-lo vai ter que olhar sob as solas das próprias botas, para ver que a matéria do poeta virou adubo para alimentar a relva, e também olhar para dentro de si, para ver as próprias contradições, incoerências, bondade e maldade, lealdade e traição, divindade e obscuridade.

O que não é nem um pouco fácil, embora seja inevitável, leve o tempo que levar. E como dizem os budistas, isso pode precisar de muitas vidas!

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