Uma Balada de Boston
Uma Balada de Boston[1]
(1854)
Para chegar logo à cidade de Boston, levantei cedo esta manhã;
Eis um bom lugar na esquina, devo postar-me e ver o espetáculo.
Abra caminho aí, Ianque![2]
Para o marechal do Presidente—para o canhão do governo!
Para a infantaria e cavalaria Federais (e os espectros copiosamente caindo).
Adoro olhar a Bandeira Nacional[3], espero que os pífanos toquem Yankee Doodle[4].
Como brilham os sabres das primeiras tropas!
Todo homem segura seu revólver, marchando teso pela cidade de Boston.
Segue uma cerração, antigos do mesmo vem claudicando,
Alguns aparecem com pernas de pau, e alguns aparecem enfaixados e descorados.
Ora, isto é realmente um espetáculo—chamou os mortos para fora da terra!
Os velhos cemitérios das colinas se apressam para ver!
Fantasmas! fantasmas incontáveis nos flancos e atrás!
Chapéus de bico com mofo e traças! muletas feitas de névoa!
Braços nas tipóias–velhos se apoiando nos ombros de jovens!
O que vos perturba, fantasmas Ianques? O que é todo esse tagarelar de lisas gengivas?
Os calafrios agitam vossos membros? Confundis vossas muletas com mosquetes, e as apontais?
Se cegueis vossos olhos de lágrimas, não vereis o marechal do presidente,
Se gemerdes assim, podereis atrasar o canhão do governo.
Que vergonha, velhos maníacos—Baixai os braços levantados e
deixai em paz vosso cabelo branco,
Aqui pasmam vossos bisnetos, suas esposas os fitam das janelas,
Vede como estão bem vestidos, vede como se conduzem em ordem.
Cada vez pior—não suportais? estais se retirando?
Esta hora com os vivos é monótona demais para vós?
Retirai-vos, então—mixórdia!
A vossos túmulos–voltai–voltai às colinas, velhos mancos!
Não acho que pertenceis aqui mesmo.
Mas há algo que pertence a este lugar–devo dizer-vos, senhores de Boston?
Sussurrarei ao Prefeito, ele enviará uma delegação à Inglaterra,
Receberão uma concessão do Parlamento, irão com uma carreta à catacumba real,
Desenterrarão o caixão do Rei George, retirarão rapidamente sua mortalha, encaixotarão seus ossos para viagem,
Encontrarão um veloz veleiro Ianque—eis frete para ti, veleiro de negro bojo,
Erga tua âncora–agita tuas velas–dirige reto para a baía de Boston.
Agora chamai o marechal do Presidente de novo, trazei o canhão do governo,
Buscai em casa os vociferantes do Congresso, fazei outro desfile, guardai-o com infantaria e cavalaria.
Esta peça decorativa para eles,
Contemplai, todos ordeiros cidadãos—contemplai das janelas, mulheres!
A delegação abre a caixa, monta as régias costelas, cola aquelas que não se fixam,
Coloca o crânio em cima das costelas, e coloca uma coroa em cima do crânio.
Conseguiste tua vingança, meu velho–a coroa veio ao que é dela, e mais do que é dela.
Metei vossas mãos nos bolsos, Ianques—sois homens feitos a partir de hoje,
Sois imensamente atraentes–e eis aqui uma de vossas pechinchas.
[1] Este é um dos primeiros poemas da edição original de 1855; foi composto em junho de 1854, reverberando a agitação pública perante a prisão em Boston do escravo fugitivo Anthony Burns, logo após a aprovação da lei Kansas-Nebraska (que dava liberdade aos colonizadores desses estados sobre a escolha de utilizar ou não escravos, ou seja, o povo decidia por voto sobre isso, o que era uma libertação com relação ao Sul escravocrata). O ritmo, estilo e tom deste poema são incomuns em Folhas de Relva, pois Whitman está sendo sarcástico diante da situação.
[2] No original, “Jonathan”, que é sinônimo de homem rústico, camponês, ou ianque, que indica o nativo dos Estados do Norte nos EUA.
[3] No original, “Stars and Stripes”, que é a bandeira nacional dos EUA, que tem estrelas e listas.
[4] Canção popular que se tornou um símbolo nacional.