França

França[1]

.

O 18º Ano destes Estados

.

Um grande ano e lugar,

Um áspero brado nativo discordante soando mais alto, pra tocar o coração da mãe ainda mais próximo que qualquer outro.

.

Caminhei nas praias de meu mar Oriental,

Ouvi sobre as ondas a pequena voz,

Vi a divina infante onde ela acordou lamentando tristemente, entre o rugido do canhão, das maldições, gritos, estrondo de edifícios desmoronando,

Não estava tão enjoado do sangue escorrendo nas sarjetas, nem dos cadáveres individuais, nem daqueles empilhados, nem daqueles carregados nas carretas[2],

Não estava tão desesperado com as matanças da morte—não estava tão chocado com as repetidas fuzilarias das armas.

.

.

Pálido, silencioso, severo, o que eu poderia dizer a essa represália longamente acumulada?

Poderia eu desejar a humanidade diferente?

Poderia eu desejar as pessoas feitas de madeira e pedra?

Ou que não há justiça no destino ou tempo?

.

.

Oh Liberdade! Oh minha parceira!

Aqui também a flama, a metralha e o machado, de reserva, pra sacá-los se necessário,

Aqui também, embora longamente reprimidos, nunca podem ser destruídos,

Aqui também poderiam se erguer por fim assassinos e extáticos,

Aqui também cobrando as contas completas da vingança.

.

.

Daqui assino esta saudação estrangeira,

E não nego aquele terrível nascimento vermelho e batismo,

Mas lembro a pequena voz que ouvi se lamentando, e espero com perfeita confiança, não importa quanto tempo,

E doravante triste e convincente mantenho a causa legada, como a todas as terras,

E envio estas palavras a Paris com meu amor,

E imagino que os chansonniers[3] de lá as entenderão,

Pois imagino que há música latente ainda na França, torrentes dela,

Oh já ouço o alvoroço dos instrumentos, eles logo afogarão tudo o que os interromperia,

Oh acho que o vento leste traz uma marcha triunfal e livre,

Ela chega aqui, ela me enche de jubilosa loucura,

Correrei para transpô-la em palavras, para justificá-la,

Ainda cantarei uma canção pra ti ma femme[4].


[1] Whitman comemora com este poema o ano de 1794 da Revolução Francesa (1789-1799). Como esta Revolução se inspirou na Independência dos Estados Unidos, o ano de 1794 indica o 18º ano da Independência Americana (1776).

[2] No original, “tumbrils”, isto é, carretas ou carroças que levavam os presos à guilhotina na Rev. Francesa.

[3] Em inglês, seria “song writer”, isto é, alguém que escreve as canções e compõe a música para elas, um compositor-letrista.

[4] “Minha mulher”; em inglês seria “my woman”. Whitman se refere à Democracia, como no poema “Para Ti, Oh Democracia”, do livro “Cálamo”.

***

E 2009 é o ano da França no Brasil. Desta forma, a homenagem é dupla: ao bardo norte-americano e à nação francesa.

***

Bookmark and Share

One Response to “França”

Leave a Reply