Canção de Mim Mesmo, uma elegia ao “eu”

APRESENTANDO A

“CANÇÃO DE MIM MESMO”

O poema “Canção de Mim Mesmo”, o primeiro dos doze na edição de 1855, tinha como título apenas o mesmo título geral da obra, Folhas de Relva, como outros da mesma edição. Também não era dividido em seções. Em 1856 foi intitulado “Poema de Walt Whitman, um Americano”. Nas edições seguintes foi chamado apenas de “Walt Whitman”, até 1881, quando recebeu o presente título. Conforme indicam os cadernos de Whitman, o poema foi iniciado nos anos de 1847-48, passando por revisões contínuas, e subdivisões (52 seções, numeradas), depois de publicado, até atingir sua forma final na edição de 1891-92[1]. Como o próprio título demonstra, este é o canto do poeta, de seu “eu lírico”, seu canto pessoal, individual, personalista. Uma elegia ao “eu”, como diz Harold Bloom[2], embora Whitman apresente vários “eus”, o “eu” simples, o “Eu mesmo”, o “Eu real”, além de sua alma. Embora seja também um canto pessoal que se funde com o coletivo, numa integração entre a parte e o todo.

Desde as primeiras linhas, “Canção de Mim Mesmo” mostra a capacidade whitmaniana de unir opostos, de realizar a síntese entre o indivíduo e a comunidade, os planos físico e  espiritual, o corpo e a alma, num ato único de amor por tudo: “Eu celebro a mim mesmo, e canto a mim, / E o que assumo, tu assumes, / Pois todo átomo pertencente a mim também per­tence a ti”. Ainda na metade do século dezenove o poeta cantava uma idéia que hoje faz parte do conhecimento básico do currículo de Física, que é a troca constante de átomos entre corpos e entre corpos e o meio em transitam, e a não separação entre eles. Whitman já havia visto que os opostos são complementares.

Este amplo gesto de Whitman é uma maneira de abolir a fronteira entre o eu individual e o coletivo, em que o amor por uma pessoa é expandido em amor pela humanidade, buscando a união de todos com todos, como ele canta no poema “A Base de Toda a Metafísica”, de “Cálamo”. O interesse pessoal se rende ao interesse comum, que se torna mais forte por este ato, sendo também uma transmutação e integração da pessoa em seu grupo humano. Como expressa este verso da seção 30 de “Canção de Mim Mesmo”: “Só o que se prova a todo homem e mulher é, / Só o que ninguém nega é.” Este é o objetivo democrático do poeta, que mostra o interesse do todo superando o interesse egoísta de somente uma parte dele. O fato é que artistas, e em especial grandes artistas, são capazes de fundir, mesclar suas vidas pessoais com a vida coletiva da comunidade que representam. Isto é o que o poeta faz. Aceita tudo em seu amplo coração: o que é bom e o que é mau na América, como canta na seção 22 de “Canção de Mim Mesmo”: “Não sou o poeta da bondade apenas, não declino de ser o poeta da maldade também”.

Outro aspecto ou tema cantado em “Canção de Mim Mesmo”, e nas Folhas de Relva em geral, é a morte, com quem Whitman tem uma relação de proximidade e tranqüilidade. O poeta está consciente de que seu corpo físico seguirá o curso natural de toda entidade viva, do nascimento à morte, e que a imortalidade, a verdadeira vida, é um aspecto da alma e do espírito. Ele sabe que seu corpo será transmutado pela química do solo, conforme canta na seção 49 da “Canção de Mim Mesmo”: “E quanto a ti, Cadáver, acho que és bom adu­bo, mas isto não me ofende”. Naturalmente, o poeta se entrega ao ventre da Terra e suas metamorfoses, entoando estes versos na última seção do poema:

Parto como o ar, agito meus cachos grisalhos ao sol fugaz,

Transbordo minha carne em turbilhões, e a arrasto em recortes rendados.

Entrego-me ao solo para brotar da relva que amo,

Se me quiseres de novo, procura-me sob as solas de tuas botas.

Há nesse ato poético uma referência aos mitos gregos de metamorfose, em particular ao mito de Cálamo, citado na seção 24 da “Canção de Mim Mesmo”. O mito relata que Cálamo, filho do deus do rio Meandro, e Carpo eram dois amigos que estavam competindo para ver quem era o melhor nadador. Na competição, Carpo morreu afogado. E Cálamo, de tristeza, também morreu, se transformando num junco aquático. Cálamo (do grego kalamos, pelo latim calamu), símbolo de união entre camaradas no conjunto de poemas de mesmo nome, significa cana, caniço, junco, colmo. Talhado em ponta, pode ser usado como instrumento de escrita. Ou instrumento musical, como a flauta de cana ou de pan. É símbolo de paz, como no caso do calumet, palavra derivada de cálamo, e que é cachimbo da paz usado pelos índios norte-americanos, mencionados por Whitman no poema “Nossa Velha Folhagem”.

Apenas nesses poucos parágrafos é possível notar que “Canção de Mim Mesmo” é um retrato de Folhas de Relva, pelos seus múltiplos aspectos e temas, e que é preciso várias leituras até o leitor começar a apreender cada um deles. Além disso, há a questão da versificação em si. Whitman é um dos precursores do verso livre ou branco, que ele criou para expressar uma nova era, pois a forma tradicional não comportava um mundo aberto e em expansão. Embora ele não repelisse o passado, resgatado em sua poesia através da escritura anafórica bíblica (de repetição de palavras no início de frases) e dos catálogos (descrições exaustivas de pessoas, lugares, cidades, países e povos), herdados da Bíblia e dos poemas épicos gregos.

Como dizia o poeta, agora é a vez do leitor, de buscar no poema o que faz sentido pra si, um trabalho que o próprio Whitman exortava os leitores a fazer, numa leitura ativa e exploradora dos textos. Inclusive porque Whitman, por ser múltiplo, é contraditório, e não revela tudo. Até o erudito Harold Bloom[3] reclamou do poeta, dizendo que ele foi cuidadoso o bastante para permanecer “evasivo” sobre si mesmo em sua poesia, e embora prometesse “nos contar tudo”, “nos conta tão pouco”. O que Bloom está querendo dizer é que o que Whitman diz ao leitor é dito por “indiretas”, por símbolos, por mitos, pelos olhos e mãos de outras pessoas, e que é tudo isso que precisamos estudar. Não é fácil entender a poesia de Whitman, pois quando a gente acha que o pegou, ele escapa de novo. Por isso há muito que descobrir em “Canção de Mim Mesmo” e Folhas de Relva.


[1] Conferir a edição bilíngüe da Iluminuras da Primeira Edição de Folhas de Relva, 2005, pp.44–131, em tradução de Rodrigo Garcia Lopes. E a versão final no original em: Walt Whitman, Leaves of Grass and other writings, New York, W.W. Norton & Company, Inc., 2002, pp. 26-78.

[2] Harold Bloom, Modern Critical Views: Walt Whitman. New York: Chelsea House Publishers, 1985, pp. 1-9.

[3] Harold Bloom, Modern Critical Views: Walt Whitman. New York: Chelsea House Publishers, 1985, pp. 1-3.

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3 Responses to “Canção de Mim Mesmo, uma elegia ao “eu””

  • [...] “Canção de Mim Mesmo” é o primeiro dos doze poemas da edição de 1855, cujo título geral é Folhas de Relva. Em 1856 foi intitulado “Poema de Walt Whitman, um Americano”. Nas edições posteriores ficou apenas “Walt Whitman”, até 1881, quando recebeu o título atual. Esse poema, iniciado nos anos de 1847-48, passou por muitas revisões e subdivisões até chegar à forma final, com 52 seções, numeradas, na edição de 1891-92. Esta é a canção do poeta, do seu “eu lírico”. É o seu canto pessoal, individual, personalista, embora ele apresente vários “eus”: o “eu” simples, o “Eu mesmo”, o “Eu real”, além de sua alma. O próprio poeta canta sua contradição neste poema, em que seu canto pessoal se mescla com o coletivo, num gesto de integração das partes num todo. Esta é a síntese entre as esferas individual e comunitária, os planos físico e espiritual, o corpo e a alma, num ato único de amor pela humanidade, sempre apontando para o divino em cada um. [...]
  • [...] do livro “Cálamo”, bem como de “Descendentes de Adão” e “Canção de Mim Mesmo,” integra o texto da minha dissertação de mestrado (SARAIVA, [...]
  • [...] Canção de Mim Mesmo, uma elegia ao “eu” [...]

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