Canção de Mim Mesmo, parte 5

5

Creio em ti minha alma, o outro que sou não deve se rebaixar a ti,

E não deves ser rebaixada ao outro.

.

Vagueia comigo na relva, solta a trava da garganta,

Nem palavras, nem música ou rima quero, nem hábito ou palestra, nem mesmo os melhores,

Somente o sossego me agrada, o rumor de tua voz valvula­da.

.

Recordo como uma vez deitamos certa manhã transparente de verão,

Como assentaste tua cabeça transversalmente em meus quadris e gentilmente giraste sobre mim,

E abriste a camisa em meu peito e lançaste tua língua em meu coração desnudo,

E tateaste até sentir minha barba e tateaste até pegar meus pés.

.

De súbito te ergueste e espalhaste ao meu redor a paz e o conhecimento que passam todo o argumento da ter­ra,

E sei que a mão de Deus é a promessa da minha,

E sei que o espírito de Deus é irmão do meu,

E todos os homens já nascidos são também meus irmãos, e as mulheres minhas irmãs e amantes,

E que uma sobrequilha da criação é o amor,

E ilimitadas são as folhas rijas ou pendentes nos campos,

E formigas marrons nos miúdos vãos sob e­las,

E crostas musgosas da cerca serpeante[1], pe­dras empilhadas, sabugueiro, verbasco e erva-dos-cachos.


[1] Worm fence / snake fence / zigzag fence é uma cerca em ziguezague, serpeante – daí o worm, ou seja, vermiforme, de maneira tortuosa -, feita de madeira (abundante na época), pelos pioneiros ou fazendeiros americanos e que ocupava muito espaço na terra no século dezenove nos EUA. Com o tempo foi abandonada em prol das cercas de arame farpado.

***

Bookmark and Share

One Response to “Canção de Mim Mesmo, parte 5”

Leave a Reply