Canção de Mim Mesmo, parte 43

43

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Não vos desprezo padres, todo tempo, sobre o mundo,

Minha fé é a maior das fés e a menor das fés,

Contendo adoração antiga e moderna e tudo entre an­tigo e moderno,

Crendo, virei de novo sobre a terra após cin­co mil anos,

Esperando respostas de oráculos, honrando os deuses, saudando o sol,

Fazendo um fetiche da primeira pedra ou cepo, curan­do com bastões no círculo de obis[1],

Ajudando o lama[2] ou brâmane conforme ele enfeita as lâmpadas dos ídolos,

Dançando ainda pelas ruas numa procissão fálica, extasiado e austero nos bosques um gimnosofista,

Bebendo hidromel de um crânio, Shastas[3] e Vedas admi­rando, cuidando o Corão,

Percorrendo os teokallis[4], manchado de sangue da pedra e da faca, batendo o tambor de pele de serpente,

Aceitando os Evangelhos, aceitando o que foi cruci­ficado, sabendo certamente que ele é divino,

Ajoelhando à missa ou se erguendo à prece do purita­no, ou sentando pacientemente num banco de igre­ja,

Arengando e espumando em minha crise insana, ou es­perando feito morto até que meu espírito me desper­te,

Olhando adiante sobre o calçamento e a terra, ou fora do calçamento e da terra,

Pertencendo aos dobadores do circuito dos circuitos.

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Um desse grupo centrípeto e centrífugo, giro e falo como um homem deixando encargos antes de uma jornada.

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Indecisos, desacorçoados, lerdos e excluídos,

Frívolos, soturnos, apáticos, raivosos, afetados, desalentados, ateus,

Conheço cada um de vós, conheço o mar de tormenta, dúvida, desespero e descrença.

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Como os lobos das caudas espadanam!

Como se contorcem rápidos como o raio, com espasmos e jatos de sangue!

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Ficai em paz lobos sangrentos de indecisos e soturnos apáticos,

Tomo meu lugar entre vós assim como entre os demais,

O passado é vosso impulso, meu, de todos, precisa­mente iguais,

E o que é ainda inexperimentado e subsequente é para vós, para mim, para todos, precisamente iguais.

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Não sei o que é inexperimentado e subsequente,

Mas sei que por sua vez isto se provará suficiente, e não pode frustrar.

Cada um que passa é considerado, cada um que pára é consi­derado, nem um único pode ser frustrado por isto.

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Isto não pode frustrar o jovem que morreu e foi en­terrado,

Nem a jovem que morreu e foi posta ao seu lado,

Nem a criancinha que espiou pela porta, e então recuou e nunca mais foi vista,

Nem o velho que viveu sem propósito, e sente um a­margor pior que bílis,

Nem aquele na casa pobre tuberculizado de rum e má perturbação,

Nem os inumeráveis massacrados e naufragados, nem o bruto koboo[5] chamado o esterco da humanidade,

Nem as bolsas meramente flutuando com bocas abertas para introduzir comida,

Nem nada na terra, ou embaixo dentro dos mais antigos túmu­los da terra,

Nem nada nas miríades de esferas, nem as miríades de miríades que as habitam,

Nem o presente, nem o mínimo fiapo que é conhecido.


[1] Crença religiosa de origem Africana (vodu), praticada no Caribe e América, que utiliza bruxaria; a palavra designa também um objeto usado nesta religião.

[2] No original, está llama, mas por motivos óbvios, é um erro de grafia e não se trata do animal, e sim do sacerdote tibetano.

[3] De novo, pelo contexto, trata-se de Shastras, escritura sagrada do Hinduísmo, e não Shasta, que designa um membro do povo índio do norte da Califórnia e sul do Oregon.

[4] Templos construídos sobre pirâmides no antigo México.

[5] “Koboo” se refere a um nativo de Palembang, na costa leste de Sumatra, na Indonésia.

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