Canção de Mim Mesmo, parte 42

42

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Um brado no meio da multidão,

Minha própria voz, bombástica, abrangente e final.

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Vinde minhas crianças,

Vinde meus meninos e meninas, minhas mulheres, parentes e ínti­mos,

Agora o artista mostra vigor, ele passou seus prelú­dios nas palhetas interiores.

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Facilmente compostos dedi-livres acordes – sinto o dedilhar de seu clímax e ocaso.

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Minha cabeça gira em meu pescoço,

Música rola, mas não do órgão,

Há gente ao meu redor, mas não são parentes meus.

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Sempre o duro chão inafundado,

Sempre os comedores e bebedores, sempre o sol ascen­dente e descendente, sempre o ar e as marés in­cessantes,

Sempre eu e meus vizinhos, revigorantes, iníquos, reais,

Sempre a velha questão inexplicável, sempre esse polegar picado, esse hálito de ânsias e sedes,

Sempre a vaia do vaiador, até que achemos onde o velhaco se esconde e o mostremos,

Sempre amor, sempre o soluçante líquido da vida,

Sempre a bandagem sob o queixo, sempre os suportes da morte.

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Andando por aí com moedas nos olhos,

Para alimentar a gula da barriga a inteligência

liberalmente servindo[1],

Comprando ingressos, pegando, vendendo, mas para a festa nunca indo,

Muitos suando, arando, debulhando, e daí rebotalho por paga­mento recebendo,

Uns poucos ociosamente se adonando, e os outros o trigo continuamente clamando.

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Esta é a cidade e eu sou um dos cidadãos,

O que interessa ao resto interessa a mim, política, guerras, mercados, jornais, escolas,

O prefeito e os conselhos, bancos, tarifas, navios-a-vapor, fábricas, estoques, lojas, imóveis e bens pessoais.

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Homúnculos opulentos saltitando em fraques e cola­rinhos,

Sei quem são eles, (não são positivamente vermes ou pulgas,)

Reconheço minhas cópias, o mais fraco e o mais raso é imortal comigo,

O que faço e digo, o mesmo os aguarda,

Cada pensamento que se debate em mim também se debate neles.

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Conheço perfeitamente bem meu próprio egotismo,

Conheço minhas onívoras linhas e não devo escrever nada menos,

E te buscaria seja quem fores no mesmo nível que eu.

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Sem palavras de rotina nesta minha canção,

Mas questionar abruptamente, saltar além mas aproxi­mar mais;

Este livro impresso e encadernado – mas e o tipógra­fo e o contínuo da tipografia?

As fotografias bem tiradas – mas e tua esposa ou amigo perto e sólido em teus braços?

O navio negro blindado com ferro, suas potentes ar­mas em suas torres – mas e a coragem do capitão e engenheiros?

Nas casas a louça a refeição e a mobília – mas e o dono e a dona da casa, e o olhar de seus olhos?

O céu lá em cima – mas e aqui ou no vizinho, ou em frente?

Os santos e sábios na história – mas e tu?

Sermões, credos, teologia – mas e o insondável cére­bro humano,

E o que é razão? e o que é amor? e o que é vida?


[1] Imagens da morte, onde os suportes são apoios onde ficam macas nas quais os mortos são colocados e as moedas nos olhos são usadas para mantê-los fechados até o funeral, combinando com a gula.

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