Canção de Mim Mesmo, parte 33
33
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Espaço e Tempo! agora vejo que é verdade, o que estimei,
O que estimei quando vagueei na relva,
O que estimei enquanto jazia sozinho em minha cama,
E de novo ao andar na praia sob as palentes estrelas da manhã.
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Meus laços e lastros se soltam, meus cotovelos repousam em fendas marinhas,
Contorno serras, minhas palmas cobrem continentes,
Estou em marcha com minha visão.
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Pelas casas quadrangulares da cidade – em cabanas de madeira, acampando com lenhadores,
Pelos sulcos da estrada, pela seca ravina e leito do regato,
Capinando meu canteiro de cebola ou cultivando fileiras de cenouras e pastinagas, cruzando savanas, trilhando florestas,
Prospectando, cavando ouro, cercando as árvores de uma nova aquisição,
Crestado até as canelas pela areia quente, rebocando meu barco pelo rio raso,
Onde a pantera anda de um lado para o outro num galho acima, onde o gamo vira furioso contra o caçador,
Onde a cascavel aquece sua flácida longura sobre a rocha, onde a lontra se alimenta de peixe,
Onde o crocodilo em suas rugosas borbulhas dorme no igarapé,
Onde o urso preto procura raízes ou mel, onde o castor sova a lama com sua cauda de pá;
Sobre a cana crescente, sobre o algodoeiro de flores amarelas, sobre o arroz em seu campo baixo e úmido,
Sobre a casa de fazenda de telhado abrupto, com seus sedimentos das chuvas e tênues brotos nas calhas,
Sobre o caquizeiro do oeste, sobre o milho longo-folhado, sobre o delicado linho de flor azul,
Sobre o trigo-mouro branco e marrom, um colibri e uma cigarra com o resto,
Sobre o verde crepuscular do centeio ao encrespar e sombrear à brisa;
Escalando montanhas, me erguendo com cautela, me agarrando em baixos galhos esguios,
Seguindo a trilha batida na grama e a picada entre as folhas da macega,
Onde a codorna assobia entre o bosque e o trigal,
Onde o morcego voa na véspera de Julho, onde o grande escaravelho dourado desaba pelas trevas,
Onde o riacho aparece nas raízes das velhas árvores e escorre para o prado,
Onde o gado esbarra e espanta moscas com o trêmulo estremecer de seus couros,
Onde a talagarça pende na cozinha, onde os trasfogueiros se estendem pela laje da lareira, onde teias de aranha desabam em bordados dos caibros;
Onde martinetes de forja malham, onde a prensa está girando seus cilindros,
Onde o coração humano bate com terríveis pontadas sob as costelas,
Onde o balão em forma de pêra flutua suspenso, (eu flutuando nele e olhando sereno para baixo,)
Onde o barco salva-vidas é puxado em nó corredio, onde o calor choca ovos verde-pálidos na areia vincada,
Onde a baleia nada com seu filhote e nunca o desampara,
Onde o navio a vapor arrasta atrás seu longo pendão de fumaça,
Onde a nadadeira do tubarão corta como uma negra lasca a água,
Onde o brigue meio-incendiado navega correntes desconhecidas,
Onde conchas aderem a seu convés lodoso, onde os mortos estão se decompondo abaixo;
Onde a bandeira densa-estrelada é levada à frente dos regimentos,
Abordando Manhattan pela ilha comprida,
Sob Niágara, a catarata caindo como um véu sobre meu semblante,
Sobre um degrau da porta, sobre o banquinho de madeira dura fora,
Sobre o prado, ou desfrutando de piqueniques ou danças de jiga ou um bom jogo de beisebol,
Em festivais masculinos, com chacotas vulgares, licença irônica, dança-do-búfalo[1], bebida, riso,
Em um moinho de cidra degustando os doces da massa marrom, chupando o suco com um canudo,
Em descascamento de maçãs querendo beijos por toda fruta
vermelha que encontro,
Em ajuntamentos, festas de praia, mutirões amistosos, descascas de milho, vigamentos de casas;
Onde o tordo entoa seus deliciosos gorgolejos, cacarejos, gritos, prantos,
Onde o monte de feno fica no terreiro, onde os talos secos são jogados, onde a vaca reprodutora espera no telheiro,
Onde o touro avança para fazer seu trabalho masculino, onde o garanhão vai à égua, onde o galo macheia a galinha,
Onde as bezerras pastam, onde gansos pegam sua comida com bicadas curtas,
Onde as sombras do poente se alongam sobre a ilimitada e solitária pradaria,
Onde manadas de búfalos se esparramam sobre as milhas quadradas longe e perto,
Onde o colibri brilha, onde o pescoço do cisne velho está se curvando e enrolando,
Onde a gaivota risonha dispara pela praia, onde ela ri seu riso quase humano,
Onde colméias se enfileiram em um banco cinzento no jardim meio-ocultas pela erva alta,
Onde perdizes pescoci-listradas pousam em círculos no chão com suas cabeças expostas,
Onde coches de enterro adentram os portões arqueados de um cemitério,
Onde lobos de inverno ladram entre restos de neve e árvores sinceladas,
Onde a garça de coroa amarela vem para a beira do brejo à noite e se alimenta de pequenos caranguejos,
Onde o mergulho de nadadores e mergulhadores refresca o
meio-dia quente,
Onde o gafanhoto trabalha sua cromática estridência na nogueira sobre o poço,
Por canteiros de cidras e pepinos com folhas prate-raiadas,
Pelo cocho de sal ou clareira alaranjada, ou sob abetos cônicos,
Pelo ginásio, pelo salão cortinado, pelo escritório ou
saguão público;
Contente com o nativo e contente com o estrangeiro, contente com o novo e o velho,
Contente com a mulher sem graça assim como com a bonita,
Contente com a quacre ao vê-la tirar o chapéu e falar melodiosamente,
Contente com a afinação do coro da igreja caiada,
Contente com as palavras austeras do transpirante pastor
Metodista, impressionado seriamente na reunião de fiéis;
Olhando as vitrines da Broadway toda a manhã, achatando a pele do meu nariz no grosso vidro laminado,
Vagueando a mesma tarde com meu rosto virado para as nuvens, ou descendo uma pista ou pela praia,
Meus braços direito e esquerdo abraçando dois amigos, e
eu no meio;
Vindo para casa com o silente sertanejo de rosto trigueiro, (atrás de mim ele cavalga ao cair da tarde,)
Longe dos assentamentos estudando a pegada de animais, ou a pegada de mocassim,
Junto à maca do hospital alcançando limonada a um paciente febril,
Próximo ao cadáver no caixão quando tudo está imóvel, examinando com uma vela;
Viajando a todo porto para pechinchar e arriscar,
Me apressando com a multidão moderna tão ávido e volúvel quanto qualquer um,
Furioso com quem odeio, disposto em minha demência a esfaqueá-lo,
Solitário à meia-noite em meu quintal, meus pensamentos perdidos de mim há longo tempo,
Percorrendo as velhas colinas da Judéia com o belo e meigo Deus ao meu lado,
Acelerando pelo espaço, acelerando pelo céu e pelas estrelas,
Acelerando entre os sete satélites e o amplo anel, e o diâmetro de oitenta mil milhas,
Acelerando com meteoros de cauda, arremessando bolas-de-fogo como os demais,
Carregando a criança crescente que carrega sua própria mãe plena em seu ventre,
Tempestuando, desfrutando, planejando, amando, acautelando,
Sustentando e suprindo, aparecendo e desaparecendo,
Trilho dia e noite tais estradas.
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Visito os pomares de esferas e olho o produto,
E olho os quintiliões maduros e olho os quintiliões verdes.
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Alço os vôos de uma alma fluida e tragadora,
Meu curso corre abaixo das sondagens de prumos.
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Me sirvo de material e imaterial,
Nenhum guarda me barra, nenhuma lei me priva.
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Ancoro meu navio por um instante apenas,
Meus mensageiros continuamente partem ou me dão retornos.
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Vou caçar peles polares e focas, pulando fendas com um cajado de ponta, pegando agarrando-me em saliências de neve frágeis e azuis.
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Ascendo ao velacho,
Tomo meu lugar tarde da noite no cesto da gávea,
Navegamos o mar ártico, ele é pleno de luz,
Pela clara atmosfera me estendo na beleza maravilhosa,
As enormes massas de gelo passam por mim e eu passo por elas, o cenário é plano em todas as direções,
As montanhas de cume branco se mostram na distância, arremesso minhas fantasias a elas,
Estamos nos acercando de algum grande campo de batalha no qual logo devemos nos engajar,
Passamos os colossais postos avançados do acampamento, passamos com pés silentes e cautela,
Ou estamos entrando pelos subúrbios alguma cidade vasta e arruinada,
Os quarteirões e a arquitetura decaída mais que todas as cidades vivas do globo.
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Sou um companheiro livre, acampo perto de invasoras fogueiras de sentinelas,
Expulso o noivo da cama e eu mesmo fico com a noiva,
Aperto-a toda a noite em minhas coxas e lábios.
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Minha voz é a voz da esposa, o estridor no corrimão das escadas,
Eles trazem o corpo do meu homem pingando e afogado.
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Entendo os grandes corações dos heróis,
A coragem do tempo presente e de todos os tempos,
Como o capitão viu o naufrágio lotado e desgovernado do navio a vapor, e a Morte o acossando pela tempestade,
Como ele segurou com afinco e não arredou uma polegada, e foi fiel dia e noite,
E rabiscou em grandes letras numa tábua, Coragem, não vos desertaremos;
Como seguiu e bordejou com eles três dias e sem desistir,
Como ele salvou a vagante tripulação por fim,
Como estavam as mulheres magras com vestidos frouxos quando resgatadas ao lado de seus túmulos preparados,
Os silentes rosti-envelhecidos infantes e os doentes revigorados, e os lábi-afiados e barbudos homens;
Tudo isso eu engulo, tem gosto bom, gosto muito, se torna meu,
Eu sou o homem, eu sofri, eu estava lá.
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O desdém e a calma dos mártires,
A mãe de outrora, condenada por bruxa, queimada com madeira seca, seus filhos fitando,
O escravo acossado que vacila na corrida, se encosta na cerca, soprando, coberto de suor,
As fisgadas que picam como agulhas as pernas e o pescoço, o chumbo grosso assassino e as balas,
Tudo isso eu sinto ou sou.
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Sou o escravo acossado, recuo à dentada dos cães,
Inferno e desespero estão sobre mim, estalam e de novo estalam os atiradores,
Agarro as grades da cerca, meu sangue goteja, dissolvido pelo exsudar de minha pele,
Caio nas ervas e pedras,
Os cavaleiros esporeiam seus relutantes cavalos, fazem carga,
Espicaçam meus ouvidos tontos e me batem violentamente na cabeça com cabos de chicote.
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Agonias são uma de minhas mudas de roupa,
Não indago da pessoa ferida como se sente, eu mesmo me torno a pessoa ferida,
Minhas feridas ficam lívidas em mim ao me apoiar numa bengala e observar.
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Sou o bombeiro arrebentado com o esterno quebrado,
Paredes desabantes me enterraram em seus escombros,
Calor e fumaça inspirei, ouvi os brados berrados de meus camaradas,
Ouvi os estalos distantes de suas picaretas e pás,
Eles retiraram as vigas, eles ternamente me erguem.
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Repouso no ar da noite com minha camisa vermelha, a impregnante quietude é por mim,
Indolor afinal repouso exausto mas não tão infeliz,
Brancos e belos são os rostos ao meu redor, as cabeças estão despidas de seus quepes,
A multidão ajoelhada desvanece com a luz das tochas.
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Distantes e mortos ressuscitam,
Eles mostram como o mostrador e movem-se como os ponteiros de mim, eu próprio sou o relógio.
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Sou um antigo artilheiro, conto o bombardeio de meu forte,
Estou lá de novo.
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De novo o longo rufo dos tambores,
De novo o canhão atacante, morteiros,
De novo aos meus ouvidos atentos o canhão replicante.
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Tomo parte, vejo e ouço tudo,
Os gritos, pragas, troar, os aplausos por tiros bem alvejados,
A ambulanza[2] vagarosamente passando, trilhando seu rubro
gotejar,
Trabalhadores procurando danos, fazendo indispensáveis reparos,
A queda de granadas pelo teto furado, a explosão em forma de leque,
O zunido de membros, cabeças, pedra, madeira, ferro, altos pelo ar.
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De novo gorgoleja a boca de meu general moribundo, ele furiosamente acena com sua mão,
Ele ofega com o grumo Não me cuidai – cuidai – as trincheiras.
[1] Dança indígena.
[2] Do italiano, ambulância.
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