Canção de Mim Mesmo, parte 20

20

Quem vem lá? desejoso, grosso, místico, nu;

Como é que extraio força da carne que como?

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De qualquer forma, o que é um homem? o que sou eu? o que és tu?

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Tudo que marco como meu tu compensarás com o teu próprio,

No mais, seria tempo perdido me ouvir.

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Não me queixo do que se queixa o mundo todo,

Que os meses são vácuos e o chão lama e sujeira apenas.

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Choroso e servil invólucro de remédio em pó para inválidos, o conformismo chega ao que é removido,

Uso meu chapéu como gosto em casa ou na rua.

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Por que eu devia rezar? por que eu devia venerar e ser cerimonioso?

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Tendo espreitado os estratos, analisado perfeitamente, aconselhado com doutores e calculado com acuidade,

Não encontro gordura mais doce do que a que se gruda aos

meus ossos.

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Em todo mundo me vejo, nem mais e nem um grão de cevada menos,

E o bem ou mal que digo de mim digo deles.

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Sei que sou sólido e saudável,

Para mim os objetos convergentes do universo perpe­tuamente fluem,

Todos são escritos para mim, e devo entender o que esta escrita exprime.

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Sei que sou imortal,

Sei que esta minha órbita não pode ser varrida pelo compasso de um carpinteiro,

Sei que não passarei como um arabesco[1] de criança rabiscado a carvão[2] à noite.

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Sei que sou augusto,

Não aborreço meu espírito para vindicar-se ou ser entendido,

Vejo que as leis elementares nunca se desculpam,

(Calculo que não me comporto com mais orgulho do que o nível das fundações da minha casa afinal.)

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Existo como sou, é o bastante,

Se nenhum outro no mundo está ciente me sento con­tente,

E se todos estão cientes me sento contente.

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Um mundo está ciente e é de longe o maior pra mim, e esse sou eu mesmo,

E se me aproprio do que é meu hoje ou em dez mil ou dez milhões de anos,

Posso animadamente suportá-lo agora, ou com igual animação esperar.

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Meu pedestal está respigado e encaixado em granito,

Rio do que chamas dissolução,

E conheço a amplitude do tempo.


[1] Whitman usou a grafia carlacue, o que tornou a busca por este termo extremamente difícil, pois as grafias mais comuns são curlicue e curlycue, palavra que significa arabesco ou floreio que se faz num desenho.

[2] Burnt stick ou charcoal stick, um bastãozinho feito de madeira queimada para desenho, ou seja, carvão para desenho.

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