Cálamo: o sentido político

“Cálamo” é um dos grupos de poemas mais autônomos e permanentes de Folhas de Relva. Publicado na edição de 1860, este conjunto celebra a camaradagem entre homens, um tipo de união que tem valor sentimental, afetivo, humano e político, pois essa união é a base da Democracia e da manutenção da nação.

Acorus calamus

Acorus calamus

A primeira questão a ser abordada é sobre o uso específico da planta cálamo na poesia de Whitman e sua intenção com ela. A explicação vem através de suas próprias palavras, citadas abaixo, em um trecho da nota 2 ao “Prefácio 1876—Folhas de Relva e Dois Riachos”, onde o poeta apresenta o que ele pretendeu com suas Folhas e particularmente com “Cálamo”:

Algo mais deve ser acrescentado—pois, enquanto estou disposto, eu faria uma confissão completa. Também lancei FOLHAS DE RELVA para despertar e por em fluxo nos corações de homens e mulheres, jovens e velhos, (meus leitores presentes e futuros,) infinitas torrentes de amor e amizade vivas e pulsantes, diretamente deles para mim, agora e sempre. [...] Digo, o elo mais sutil, mais doce, mais certo entre eu e Ele ou Ela, que, nas páginas de Cálamo e outras seções me perceber—embora nunca nos vejamos, ou apesar de eras e eras adiante—deve, deste modo, ser afeição pessoal.

[...]

Além disso, por mais importantes que sejam [os poemas] em meu propósito como expressões emocionais para a humanidade, o sentido especial do conjunto Cálamo de FOLHAS DE RELVA [...] reside principalmente em sua significância Política. Em minha opinião, é por um desenvolvimento ardente, consentido, de Camaradagem, a bela e sã afeição de homem para homem, latente em todos os jovens, Norte e Sul, Leste e Oeste—é através disso, digo, e pelo que vai diretamente e indiretamente com isso, que os Estados Unidos do futuro, (nunca é demais repetir,) há de ser mais efetivamente soldado, intercalado, fortalecido em uma viva união.

Assim, como indício geral, é pra guardar na memória imperativamente e sempre que FOLHAS DE RELVA inteiro não é para ser interpretado como um esforço intelectual ou escolástico ou Poema principalmente, mas mais como uma elocução radical vinda dos abismos da Alma [...], das Emoções e do Físico—uma elocução ajustada a, talvez nascida da Democracia e da Ciência Moderna [...], e em sua própria natureza indiferente às antigas convenções, e, sob as grandes Leis, seguindo somente seus próprios impulsos.  (Walt Whitman, Leaves of Grass and other writings, New York, W.W. Norton & Company, Inc., 2002, p.657)

Não é por acaso que Whitman fala na união entre homens e mulheres através de amizade e amor, e em especial no conjunto “Cálamo” por uma ardente camaradagem entre homens. O poeta tinha em sua vida vinte anos de envolvimento com a política. Tinha visto o fracasso do sistema político norte-americano, no qual militou como jornalista e partidário[1]. Na verdade, estava desapontado com o sistema político como um provedor de soluções concretas para problemas reais, particularmente a escravidão, um cancro que havia infectado a vida da nação e a estava levando a um estado de decadência moral. Whitman era uma testemunha pessoal disso. Pertencera a partidos políticos. Havia sido “um escritor bem sucedido de jornalismo competente” assim como um “Democrata”[2] e conhecia os políticos de seu tempo e seus afazeres. Embora fosse contra a escravidão, era também contra a divisão do país e de seu povo, e respeitava a Constituição. Por este motivo ele é às vezes criticado por não ter sido um abolicionista radical. Whitman depreciava a escravidão, mas sentia que uma nação dividida seria pior do que isso. Allen nos auxilia com um breve comentário sobre esta atitude do poeta:

Para Whitman a Constituição era sagrada e cada seção devia ser observada “em espírito e em letra”. Ele considerava a escravidão errada, mas até que fosse abolida pela ação ou consentimento dos estados, a Constituição não devia ser violada mesmo para combater a escravidão[3].

Esse terrível dilema estava partindo a cabeça e o coração do poeta. Assim, ele decidiu abandonar a política profissional em favor de um propósito maior: criar uma obra que faria o que a política não poderia fazer, isto é, unir o país, fazer uma nação, algo que não poderia ser alcançado apenas com idéias e ações materialistas. Whitman acreditava que devia haver algo além da visão materialista do mundo que dominava a cena norte-americana que poderia ser usado para este propósito maior, e isto era o amor de pessoa para pessoa, afeição, igualdade, camaradagem, amatividade (atração entre os sexos), adesividade (amor aos amigos, disposição para se associar, necessária ao convívio social[4]), os temas que cantou nas Folhas.

Conforme o poeta afirmou no Prefácio de 1876, há um significado político em sua poesia, e o junco, cana ou cálamo é o símbolo que representa o sentido político da “ardente camaradagem”, o elemento que liga a afeição pessoal à sua aplicação política. É a transformação de algo individual em algo coletivo. Deste modo, Whitman abandonou a política profissional, mas não a atitude política, como pode ser visto no seguinte trecho de Walt Whitman, An American, que nos dá uma descrição precisa de seus pensamentos e sentimentos no período anterior à publicação de Folhas de Relva:

[…] Em setembro de 1849, ele renunciou com um amargo adeus a seus inimigos, e ‘antigos Hunkers em geral,’ termo pelo qual ele indicava Democratas conservadores prontos a sacrificar solo livre para manter o partido no poder.

Isto – e tenho certeza que Walt percebeu – foi o fim de sua carreira como editor político. Walt não era somente um partidário do Solo-Livre como seu amigo Bryant, ele era um ‘Barnburner’ [termo que indicava os liberais do partido], com vontade de sacrificar nomeações e poder por princípios, e pronto a dividir o partido se necessário. E como muitos membros líderes desta facção, ele mais tarde abandonou os Democratas e foi para o novo Partido Republicano, onde, no entanto, ele nunca funcionou como um político ou editor. Sua carreira jornalística tinha muitos anos pela frente; ele teria, como veremos, outro emprego de editor, embora não um que fosse político; mas, a partir desse ano crucial de 1849, ele torna-se mais e mais desconfiado da política americana, mais e mais resolvido a falar por si mesmo[5].

Partidários do Solo-Livre eram membros do Partido do Solo-Livre, um partido político nos Estados Unidos que atuou nas eleições presidenciais de 1848 e de 1852 e em algumas eleições estaduais. Era uma dissidência do Partido Democrata e foi integrado ao Partido Republicano em 1854. Seu objetivo principal era opor-se ao estabelecimento da escravidão nos novos territórios. Defendiam a idéia de que homens livres trabalhando em solo livre era um sistema moralmente e economicamente superior à escravidão. Basicamente, queriam manter os novos estados criados no oeste livres de escravos, embora não fossem contra a escravidão em si nos estados onde já existia. Whitman ficou responsável pelo jornal, The Freeman, em 1848, mas o jornal foi incendiado após a primeira edição e só recomeçou a funcionar dois meses depois. No entanto, Whitman estava “determinado a manter a escravidão fora das novas terras a oeste do Mississippi, embora ainda não fosse de modo algum um Abolicionista. Ele estava tornando-se mais radical, radical demais para The Freeman[6]. Consequentemente, em 1849, demitiu-se do jornal.

Assim, é bem plausível que uma total desilusão política tenha sido motivação forte o suficiente para fazer alguém com impulso artístico trocar a política pela literatura, especialmente porque esse dom literário já havia se manifestado durante sua carreira jornalística. Whitman havia escrito críticas a livros e conhecido pessoalmente escritores, tais como Edgar Alan Poe e William Cullent Bryant (poeta, critico e editor norte-americano, 1794-1878).

Em “Canção de Mim Mesmo”, na seção 24, há um verso com a palavra “afflatus” (inspiração; Whitman gostava de usar a palavra “afflatus” para descrever um forte impulso criativo ou inspiração divina): “A inspiração me atravessa se agitando cada vez mais”. É interessante notar que o verbo “se agitar / se encapelar”, para explicar sua inspiração divina, significa subir e se mover de uma maneira encapelada ou volumosa, ou rolar e ser sacudido sobre ondas, como um barco e também se mover como ondas. Isto significa que o poeta não somente derramou seu oceano de amor, o “desme­dido oceano de amor dentro dele”, como fez em “Registradores Eras Adiante”, de “Cálamo”, mas também seu impulso criativo, que praticamente se apossou dele. Ele teve que se render às suas “grandes ondas imperiosas” (do poema “Em Navios com Cabines no Mar”, de “Inscrições”). A política não era um meio apropriado de transmitir esse “oceano de amor” ao público. Deste modo, na época da dura crise ideológica sofrida por Whitman no final da década de 1840, quando viu a corrupção se alastrando nas três esferas do governo (municipal, estadual e federal), tudo que ele queria era fugir da política profissional. Assim Canby descreve o humor de Whitman naqueles dias:

Sua primeira reação à desilusão política foi uma violenta aversão por todo o negócio de política partidária. Como muitos outros idealistas que se desapontaram com toda a maquinaria pela qual a vida em sociedade é levada, ele queria esmagar todas as máquinas. [...] Whitman está cheio da política prática. Chegou o tempo de homens serem levados em conta, não partidos. Máquinas partidárias são dirigidas por candidatos a cargos públicos e fantoches do Presidente. [...] Walt [...] perdeu a fé, por um momento, no sistema democrático, embora não na democracia. Seus dias de editorialismo político acabaram [...], seu interesse em deixar o sufrágio foi absorvido por seu interesse em dar ideais ao seu país[7].

Então, não havia salvação para Whitman ou para a nação na política. Como poderia a unidade da nação ser mantida por um Estado corrupto? Como poderia um governo corrupto manter trabalho livre e escravidão em paz num país se era esse mesmo governo corrupto que negociava interesses pessoais para assegurar esse mesmo estado de coisas? Com certeza qualquer cidadão honesto concordaria que não é necessário estar inspirado para perceber que não há solução em políticos desonestos que tentam convencer a população de que a escravidão seja boa para os escravos (para fazê-los aceitá-la e não lutarem por liberdade) e também boa para os trabalhadores livres, que estão perdendo empregos porque existem escravos disponíveis para fazer o trabalho de graça.

Alguns críticos sugerem que a mudança de Whitman nesse período foi devido a algum tipo de iluminação, que poderia tê-lo empurrado para a poesia. Como ninguém parece aceitar que um “gênio criativo” pudesse começar a trabalhar numa idade mais provecta, como canta o próprio poeta em “Canção de Mim Mesmo”, na seção 1: “Eu, trinta e sete anos, em perfeita saú­de inicio, / Esperando não cessar até a morte”, Canby diz que “A lenda de Whitman toma conta da biografia de Walt nesses anos. Diz que Walt deixou o mundo jornalístico. Diz que teve experiências místicas.” Simplesmente porque ninguém consegue explicar como “[…] da pena de um editor político e literato diletante, apareceram os primeiros poemas radicais, revolucionários, egotistas e poderosos de ‘Folhas de Relva’”[8].

Por isso, em vez de pensar numa iluminação que nunca poderia ser provada, apesar de não podermos negar a lucidez e brilhantismo de Whitman, seria melhor pensar num homem, numa pessoa que de fato amava seus concidadãos com todo seu coração, que os amava tanto que desistiria de sua carreira jornalística para fazer a vontade de seu coração: cantar seu povo, sua nação, uma unidade que poderia ser alcançada pelo coração universal, “includente”[9] do poeta. Que queria espalhar seu amor tanto quanto o mar faz com sua água. Um poeta “Que não tinha orgulho de suas canções, mas do desme­dido oceano de amor dentro dele, e que derramou livremente,” pelo bem de seus queridos camaradas, os verdadeiros amigos que construiriam uma nação juntos. Este poeta encontrou no cálamo, no junco, o símbolo que representaria esta energia unificadora, conectando pessoa a pessoa, homem a homem, amigo a amigo.


[1] No ensaio “Origins of Attempted Secession” (“Origens da Tentativa de Secessão”, incluído em Specimen Days and Collect, 1882), o poeta fornece uma descrição de suas atividades políticas como “observador próximo” e “eleitor” por um período de vinte anos (1840-1860).

[2] Henry Seidel Canby, Walt Whitman, An American: A study in biography, New York, Literary Classics, Inc., 1943, pp. 72-88.

[3] Gay Wilson Allen, The Solitary Singer: a critical biography of Walt Whitman, New York, The Macmillan Company, 1955, p. 198.

[4] O interesse de Whitman em Frenologia, a ciência da mente que afirma que as faculdades mentais são indicadas pela conformação do crânio e assim podem ser analisadas e melhoradas, o fez visitar o consultório dos irmãos Fowler para um exame. Ed Folsom e Kenneth M. Price dão um relato dessa visita em sua biografia de Whitman na sua página de internete “The Walt Whitman Archive”: “Em 16 de julho, 1849, o editor, guru da saúde e reformador social Lorenzo Fowler confirmou o senso crescente de Whitman de capacidade pessoal quando sua análise frenológica da cabeça do poeta levou a uma descrição elogiosa—e de algum modo bem precisa—de seu caráter. Além de favorecer a confiança de Whitman, a leitura das “protuberâncias” em seu crânio lhe deu vocabulário chave (como “amatividade” e “adesividade”, termos frenológicos que descrevem afeições entre e dentre os sexos) para Folhas de Relva. A associação de Whitman com Lorenzo Fowler e seu irmão Orson se comprovaria de contínua importância até bem dentro da década de 1850. Os irmãos Fowler distribuíram a primeira edição de Folhas de Relva, publicaram a segunda anonimamente e providenciaram espaço na revista de sua firma para uma das auto-críticas de Whitman.” A biografia acima citada está disponível em: <http://www.whitmanarchive.org/biography/biographymainindex.html>.

[5] Henry S. Canby, Walt Whitman, An American: A study in biography, New York, Literary Classics, Inc., 1943, p. 79.

[6] Henry S. Canby, Walt Whitman, An American: A study in biography, New York, Literary Classics, Inc., 1943, p. 78-9.

[7] Ibid., pp. 131-2.

[8] Ibid., p. 82.

[9] Cf. Harold Bloom, The Western Canon, The Books and Schools of the Ages, New York, Riverhead Books, 1995, p. 259, em que Bloom cita as palavras de Whitman a Emerson, nas quais o poeta se refere a seu mentor como um “homem justo”, “amoroso, includente”, que são, na opinião de Bloom, exatamente as características que ligam os dois escritores-poetas.

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