Análise do trabalho realizado até o momento

Analisando todos os livros e poemas que já traduzi de Folhas de Relva, os quais podem ser todos lidos neste site, acredito que preenchi minhas próprias expectativas com relação à recriação ou simplesmente tradução da poesia de Walt Whitman para nossa língua.

Muito embora seja difícil criticar o próprio trabalho, por poder cair na armadilha do auto-elogio, pelo menos posso dizer que minha abordagem a esta tarefa é diferente das traduções geralmente literais ou quase literais existentes, principalmente no que se refere a ritmo, como enfatizo bastante em minha pesquisa de doutorado.

Também pelos retornos que já recebi sobre o meu trabalho, e aqui falo de opiniões experientes, posso dizer que consegui manter o fluxo dos poemas, e sinto que sua leitura em voz alta demonstrará isso, pois sempre testo minhas escolhas sonoramente, para ver se elas são adequadas ao poema.

Isso quer dizer que sempre tento encontrar a melhor combinação de sons possível para cada verso ou parte de verso. Meu propósito nisso não é fazer o verso soar bonito, mas estabelecer a melhor combinação fônica para transmitir o sentido do verso captado no original em inglês. Há casos em que o efeito poderá ser exatamente o contrário, isto é, em vez de beleza, o verso descreverá cenas nas quais pensamentos terríveis e doenças estarão presentes.

Além disso, fiz um trabalho meticuloso sobre o vocabulário, para que os trechos ou palavras do original que transmitam uma sensação de estranheza pudessem ser transpostos dessa maneira em português.

No entanto, há mais do que estranheza em Folhas de Relva: Whitman gostava de utilizar palavras emprestadas de outras línguas, tais como francês, espanhol e línguas americanas nativas (ex.: savant, Libertad, Paumanok); ele gostava de escrever palavras com K (kanadiano, kosmos), e ele às vezes mudava a grafia das palavras (ele escreveu “carlacue” – floreio, ornamento -, na seção 20 de “Canção de Mim Mesmo”, mas a grafia correta é “curlicue” ou “carlycue”). Tudo isso se transforma em árdua tarefa para o tradutor, pois às vezes a gente leva um tempo danado para descobrir que aquela palavra cujo sentido não conseguimos descobrir simplesmente foi buscada em outra língua! Como se diz no popular, são os ossos do ofício.

Tudo isso, junto com seu extenso vocabulário em Folhas de Relva, mais de 13.000 palavras, a tarefa de pesquisar e verificar cada uma delas é tremenda. Neste caso, a Norton Critical Edition (WHITMAN, 2002), ou seja, a edição crítica da editora Norton, tem sido de um valor inestimável com seu incrível número de notas a poemas e vocabulário. Sem ela, provavelmente a tradução teria muitas falhas.

Também fiz um trabalho exaustivo com relação às estruturas gramaticais e pontuação, assim como com a maneira whitmaniana de usar certas colocações, particularmente com adjetivos, que Whitman tendia a usar em locais da oração que não se adequam ao inglês correto (ele gostava de usar adjetivos depois dos substantivos, o que não é considerado sintaticamente aceitável na língua inglesa).

Como em português os adjetivos podem aparecer antes ou depois dos substantivos, sempre tentei inseri-los da melhor maneira possível, isto é, de forma a manter a atmosfera original dos poemas.

Outro aspecto que re-criei com o máximo de cuidado foi o uso das formas –ing (que podem ser chamadas de gerúndio ou particípio presente), sejam elas verbos ou substantivos / formas nominais, já que elas são uma parte essencial do verso de Whitman.

Apesar de tudo que já escrevi, que está publicado neste site, no Whitmanian Seeds In The Kosmos (a tese em inglês) e no Sítio de Poesia (a dissertação em português), eu sei que o trabalho de um tradutor nunca termina, pois toda vez que retornamos aos poemas, procuramos erros que porventura não tenham ainda sido detectados, e certamente os encontraremos, e verificaremos cada verso de novo para melhorá-lo, como fiz com minhas traduções anteriores.

Entretanto, também sei que chega um momento em que os olhos não são mais capazes de encontrar erros, devido à excessiva proximidade com os textos. Desta maneira, o tradutor faz uma pausa em sua tarefa, suspendendo também a auto-crítica, repassando este trabalho para críticos e leitores.

Parafraseando Whitman, no momento estou contente com o trabalho já realizado com Folhas de Relva, e o deixo inteiramente à vista do público aqui, para ser avaliado e comentado. Enquanto isso, vou meditando e preparando a tradução de outros poemas, e parodiando o início da Divina Comédia de Dante: estou ainda em meio da jornada! Há ainda muito trabalho pela frente, e é preciso coragem e determinação para levar esta empreitada a cabo!

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