A solidão, o pessimismo e a transcendência de Whitman
Whitman escreveu o seguinte poema em 1840, aos 21 anos de idade, quando ele estava experimentando versos sobre o “tema da amizade”, como disse seu biógrafo Wilson Allen. Na realidade, não é bem amizade que ele trata neste poema, mas sim a busca de uma paixão terrena, um amor que acalmasse sua sede de outro ser:
Oh, potentes poderes do Destino!
Quando deste rolo de tendões me libertar,
Quando por minha segunda vida vagar,
Permitam-me apenas encontrar um coração para amar
Como eu desejaria amar.
Permitam-me apenas encontrar um único peito,
Onde esta alma cansada possa sua esperança repousar,
numa fé imorredoura; ah, então,
Isso seria uma glória livre da dor,
E do enjôo do coração.
Pois em vão por este mundo abaixo
Buscamos afeição. Só o desgosto
tece nossa viagem terrena;
E assim o coração deve mirar acima,
Ou morrer em surdo desespero.
Estes versos e o texto abaixo estão na seção 2.5.3, After the death of Carpus, da minha tese de doutorado, traduzidos aqui por mim e acrescidos de alguns comentários.
O questionamento de Whitman se ele alguma vez encontraria um
coração para amar como ele gostaria de amar definitivamente não é sobre
amizade.
Encontrar um coração para amar significaria “bliss” (no original),
êxtase, alegria, completos, sua total aspiração e inspiração.
E já de início ele está falando sobre fazer isso
em sua “segunda vida”, não em sua real, que é um
sinal de que ele sabia desde cedo que ele não iria encontrá-lo.
Allen acrescenta que este poema foi a “Premonição” de Whitman do “cantor solitário” que ele se tornaria.
O poeta sentia dentro de sua alma que ele iria passar sua
vida sem a pessoa certa para ele, como se a
pessoa certa tivesse morrido ou não tivesse nascido afinal.
E ele sabia que ele teria de permanecer sozinho toda sua vida, esperando
por uma segunda vida para encontrar essa pessoa em algum lugar “acima”.
Ele sabia que ele iria “carregar esse peso” (“Carry That Weight”) por um longo tempo, como os Beatles cantaram nessa canção do seu álbum Abbey Road,
de 1969.
O poeta levaria muito tempo, talvez até sua “segunda vida”, para finalmente ser capaz de ter “sono dourado” (“Golden Slumbers”) em seus olhos, para citar outra canção do mesmo álbum dos Beatles.
Em resumo, podemos não saber o que realmente aconteceu para ele agir daquela maneira; no entanto, sabemos o que ele fez com o que aconteceu: ele
transmutou tudo em poesia (como é cantado no poema citado na seção 2.5.2), para escapar como a Natureza escapa, ou “partir dos materiais”, e reencarnar em uma nova forma de vida, para que ele pudesse
fazer algo efetivo para seus camaradas.
Além disso, no final do poema, ele aponta os possíveis caminhos para si mesmo: já que a vida é feita de desgosto e sofrimento, o “coração deve mirar acima”, isto é, a transmutação do sentimento, transcender tudo que é inerente ao mundo material, ou morrer em desespero, se ficar mirando apenas o que está abaixo, a miséria do mundo, a falta, a carência, o pessimismo.
Neste ponto, como o próprio poeta diria mais tarde, ele também é contraditório, pois ao mesmo tempo que acreditava na vida e na saúde e pureza do corpo, ele também tinha o sentimento pessimista de que não iria encontrar a pessoa certa para amar.
De fato, como relatam suas biografias, ele não encontrou.
Teve apenas os casos comentados por todos os biógrafos com amigos ou companheiros, mas nunca assumidos por ele em sua vida terrena, relacionamentos nem sempre tranqüilos e serenos, e que no final da vida ele os negou, dizendo que tinha tido relacionamento com mulheres e filhos com elas, também nunca comprovados.
O que sabemos com certeza é que ele se tornou o “Cantor Solitário”, como o pássaro de seu poema (“Do Berço Infindamente Embalando”), que perdeu a companheira e precisou mirar sempre acima, em busca de transcendência, da alma, do divino em si, de um consolo espiritual, para não ter que passar a vida em completo sofrimento, imerso numa matéria que ele ainda por cima teve que suportar em invalidez em seus últimos anos.
Quem sabe em uma segunda vida, encarnado em outro espaço e tempo, ele tenha a chance de encontrar o amor de sua vida, aquela pessoa por quem ele tanto ansiou, abrindo seu coração para amar e saindo de vez do pessimismo de quem intuiu cedo na vida que não o faria, deixando para trás o que foi apenas uma crença, e não uma verdade absoluta.